sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Momento do Sporting

Hoje apetece-me escrever sobre o Sporting, até porque pelo que tenho ouvido mais ninguém está interessado em falar do que se passa no relvado sportinguista.

Esta semana ouvi um senhor na Sic Noticias a falar sobre esta crise de resultados e exibições.

O que ele disse não é muito diferente daquilo que todos os outros dizem (nunca é).
O Sporting perde e joga mal devido à sua estratégia de comunicação, à montagem da sua estrutura do futebol porque o André Geraldes é muito novo e devido aos baixos rendimentos dos seus jogadores.
Por sua vez os baixos rendimentos dos seus jogadores são consequência de motivos alheios ao jogo: o Bryan foi pai, o Gelson está a negociar o contrato e o William e o Adrien querem sair.
Isto é o Rui Santos a falar de futebol.

Acho isto muito pobre. 
Quando queremos analisar o rendimento de uma equipa devemos começar por olhar para o comportamento tático e colectivo desta.

Acima de tudo o Sporting joga mal por responsabilidade do seu treinador. A construção do plantel foi deficiente, a aposta nos jogadores é indecifrável, a construção táctica da equipa é inexplicável, a leitura do jogo é incompreensível e o rendimento dos jogadores é um reflexo do trabalho nos treinos e do seu posicionamento em campo.

O grande problema do futebol do Sporting é a incapacidade do Jorge Jesus em ler o jogo e de não inventar.

O Jorge Jesus é um grande treinador, um péssimo manager, um mau líder e um egocêntrico insuportável. Tem as suas ideias e não sabe adaptar-se nem aceitar os seus erros. Por isto não evolui.

Gosta de trabalhar as suas equipas para ataques rápidos e constantes. Muita gente à frente e pouca gente atrás. Abdica do controlo, do equilíbrio, do domínio no meio-campo e da segurança. Por isto o seu maior sucesso sempre foi no saber colocar uma equipa a defender com poucos.

É um treinador de 4-2-4 com laterais ofensivos e um médio de chegada à área. Neste seu estilo de jogo não pode viver sem um médio defensivo capaz de fazer todas as compensações, não consegue viver com um ponta de lança de área e não funciona sem um segundo avançado móvel capaz de fazer a ligação de todos os sectores no meio-campo ofensivo.

Na época anterior o Sporting não correspondia às ideias do seu treinador mas o desta época é exactamente um espelho destas.

O ano passado, com o plantel que lhe foi dado, o Jorge Jesus adaptou os melhores jogadores às suas ideias. Foi nesse contexto que o João Mário foi encostado à direita.
O que é que vimos nesse Sporting?
Um ponta de lança móvel com capacidade de ir às alas, pressionar os defesas e aproximar as linhas – Slimani. Um segundo avançado a fazer o papel ofensivo de um 10. E um João Mário, portanto um extremo direito que na verdade era um médio, a jogar mais encostado à direita.
João Mário e Slimani potenciavam um jogo mais curto e apoiado no Sporting. Os jogadores actuavam mais próximos e com isso defendiam melhor, pressionavam melhor, corriam menos e multiplicavam as linhas de passe.

Esta não era uma equipa à Jorge Jesus mas era muito o reflexo daquilo que o treinador fazia os jogadores renderem nos treinos.

Nesta segunda época já preparou uma equipa à sua imagem, num 4-2-4 puro.

Contudo começou logo por falhar em 3 momentos:

- Construção do plantel. Foram vários os jogadores contratados sem qualidade, o que acaba com a profundidade da equipa levando ao desgaste físico e emocional em várias posições.

- Qualidade do treino. Alguma coisa aqui está a falhar pois não era expectável que o Jorge Jesus não conseguisse tirar qualquer rendimento de jogadores como o Markovic e Joel. Aliás, também do próprio Bryan.

- A dupla ofensiva. Para mim aqui mora a falha fatal do futebol do Sporting. Não só o Jorge Jesus ainda não conseguiu definir um jogador para a posição chave de todo o seu processo ofensivo, a de segundo avançado, como anda a jogar com um excelente ponta de lança cujo o estilo não se enquadra no Futebol do treinador. Por algum motivo o JJ não se cansa de demonstrar a sua insatisfação com o Bas Dost e não consegue sequer perceber a sua importância além golos.

Haveria um quarto ponto que seria o impulso para a invenção, principalmente na lateral esquerda. Bruno César a jogar ali é um erro enorme. Não só a equipa fica com um péssimo defesa esquerdo como perde um bom/útil segundo avançado.

A avaliação ao desempenho dos jogadores nunca pode ser independente do desempenho da equipa, e vice-versa obviamente.

Com isto quero dizer que jogadores que rendiam muito, como o Gelson e o Adrien, só podem baixar o seu rendimento com o acentuar do mau momento desportivo da equipa. É uma questão mental e também física. Além disso, andam a exigir a um miúdo de 21 anos que seja a solução de todos os problemas da equipa.

Depois também não podemos dissociar o desempenho dos jogadores do posicionalmento táctico da equipa.

O Bryan não é um jogador de sprints. O Bryan é um jogador de classe, de futebol apoiado e de construção. Nunca de correrias.

Hoje temos um Sporting a jogar muito mais largo. O avançado joga mais subido e central e o extremo direito joga mais aberto e vertical. Isto afasta os jogadores do Sporting, reduz os apoios e as linhas de passe.
Isto obriga a que o Bryan jogue mais para trás, corra mais e recorra mais ao passe longo. E depois com um Bruno César a lateral e um meio-campo menos apoiado, o costa-riquenho tem também de andar a desgastar-se mais defensivamente.

E não muito diferente é aquilo que se passa com o William. Não nos enganemos, o William Carvalho é um grande médio defensivo. Não é é um trinco. Está longe de ser um Fejsa.
O William não é rápido com a bola no pé mas sabe jogar, sabe avançar no terreno, sabe impor o físico, ler o jogo e combinar com os colegas.
Neste Sporting a exigência sobre o William é a de ser mais defensivo e solitário. Assim é mais pressionado quando tem bola, tem menos apoio e perde os momentos do jogo para fazer aquilo que sabe.

Se à partida as coisas estão mal construídas é normal que o desempenho dos jogadores não seja o melhor. Depois é ir somando o peso dos maus resultados e o acumular do cansaço.

Então no meio-campo é gritante a falta de cobertura tanto ao Adrien quando ao William.

Tudo isto pode melhorar com duas pequenas mudanças.

Jorge Jesus tem de parar de querer provar que transforma caca em ouro e começar a apostar nos melhores jogadores. Aqui tenho de concordar com o Bruno de Carvalho. O Sporting precisa de se livrar dos jogadores de menor qualidade, mesmo contra a vontade do treinador.

O Bruno César tem de ser colocado atrás do Bas Dost.

Como lateral é péssimo e todos os jogos são erros atrás de erros. Como segundo avançado nunca será um grande jogador mas as suas características podem servir muito a equipa, aumentando simultaneamente o rendimento colectivo e individual de todos os jogadores.
Ele consegue fazer a ligação entre os vários sectores do ataque, criando assim mais apoios ao Bas Dost, ao Bryan Ruiz e aos médios leoninos. Aproxima as linhas, elevando a capacidade de pressão e o número de linhas de passe, e liberta os médios para o momento ofensivo. Além disso é um médio com boa capacidade de meia distância o que iria logo proporcionar outras opções de finalização à equipa, obrigando os defesas adversários a dar mais liberdade ao holandês.

Agora, digam de vossa justiça.

Coates não é melhor do que o pior central do Benfica. Não vejo qualquer interesse nesta compra além de parecer advir de um benfiquismo lagarto que é o de pensar mais no adversário do que em nós. Não quero vinganças nem roubos nem nada. Quero o clube comprometido consigo e com os seus adeptos. Coates é um calmeirão que se posiciona invariavelmente mal e que por isso se farta de dar porrada e fazer penalties (que por acaso nunca são marcados mas disso a culpa é do Benfica).







terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A magia (in)visível da CAN



O preconceito é mais sanguíneo do que se possa pensar. Todos somos racistas - brancos, pretos, mulatos, indígenas, ciganos, asiáticos, seres de outros planetas. A educação que tivemos condicionou-nos, tentou fazer de nós seres maldosos. Mesmo quando os nossos pais e os nossos amigos foram boas pessoas ou tentaram ser boas pessoas, mesmo assim a língua venenosa do preconceito tentou sempre condicionar a nossa forma de ver o mundo. E só há um antídoto: viajar (ou pelo mundo ou pelo nosso cérebro). Viajar para quebrar todas as barreiras. Viajar para amar as diferenças. Viajar para sermos melhores.

No facebook, a maior competição futebolística africana é partilhada através de pequenos momentos humorísticos, coisas peculiares, gestos cómicos. Alguém diz

- Os gajos só dão porrada!

Outro concorda e faz um like. Depois passa um vídeo em que um jogador na maca leva um toque de um carrinho de apoio.

Nada disto interessa para aquilo que o futebol africano tem a dar ao mundo, e é muito e é lindo.

Confesso que só há 8 anos comecei a ver a CAN com olhos de quem quer ver. O que tenho visto é um futebol cheio de invenção e de infância. Claro, mal jogado tantas vezes como aquelas que vemos em Portugal, em Inglaterra, em França,  mas há coisas naquela forma de lidar com a bola que não são europeias.  Coisas que ainda vêm de uma maneira de viver o jogo muito para além da táctica ou de exigências milionárias dos clubes.

A CAN ainda nos permite ver pedaços de futebol de rua descalça. Mesmo os craques conhecidos mundialmente, quando chegam às suas selecções tornam-se mais humanos, arriscam mais, esquecem as prelecções em hotéis de luxo. Não é raro ver um jogador africano, que no seu clube é obrigado a cumprir religiosamente as directrizes do seu técnico, a deixar fluir a sua memória de futebol. A fintar 3 adversários como se estivesse ainda na rua onde nasceu. E vêem-se coisas lindas. Coisas que o fizeram ser o extraordinário jogador que agora é na Europa.

A CAN não é um circo para desenvolver no facebook o preconceito mascarado. A CAN é um óptimo lugar para ver futebol. Para perceber futebol. Porque o futebol não é nem nunca foi património de nenhum lugar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Esta jornada está a correr muito bem para nós



- conseguimos recuperar de um 0-3 para um 3-3, o que será uma óptima referência mental nos jogos futuros em que estivermos em desvantagem;

- fomos claramente prejudicados pela arbitragem, o que ajuda a destruir as teorias paranóicas dos rivais (a culpa de irmos na liderança afinal é mesmo do Benfica);

- o Sporting empatou logo a seguir, mantendo-se a 8 pontos de nós;

Agora só falta o Porto empatar com muito colinho do árbitro para ficarmos com o campeonato no papo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O elo mais fraco

O erro é um acontecimento natural em todas as profissões. Correctores de bolsa, médicos, bancários, empregados de mesa, advogados, jornalistas, todos erram. Os árbitros não são excepção. Tempos houve em que o erro na arbitragem se associou a um elevado clima de suspeição e com motivos que o justificavam. Mas os tempos mudaram. De uma classe composta por gente desonesta e corrupta, o paradigma da arbitragem no futebol português alterou-se com o folhetim Apito Dourado, que teve consequências muito positivas no que toca à transparência e honestidade intelectual dos juízes do jogo.

Depois de uma geração composta por homens como Pedro Proença, João Ferreira, Pedro Henriques ou Duarte Gomes, árbitros com maior ou menor competência, com qualidades e com defeitos, uns mais vaidosos, outros mais arrogantes e outros ainda bastante inseguros, mas todos eles minimamente idóneos e íntegros, abriu-se um gap geracional com a saída destes ex-árbitros. Deu-se lugar a uma classe que apesar dos estudos, dos seminários e das formações é francamente inexperiente e que tem mostrado não ter arcaboiço mental para lidar com as pressões de que tem sido vítima. Uma classe que hoje é facilmente influenciável.

Pelos erros próprios de Sporting e Porto, foram os árbitros a pagar a fava. É sempre mais fácil culpabilizar esta classe que assumir os próprios erros. Os principais rivais do Benfica colocaram o futebol português em estado de sítio, pondo em causa a honestidade dos árbitros e em perigo a  sua integridade física, com as ameaças de morte que são conhecidas. E como se viu pelo seminário organizado que juntou Conselho de Arbitragem, árbitros e dirigentes dos clube dos campeonatos profissionais, as tão propaladas decisões controversas foram, na sua larga maioria, correctas.

O problema vem depois. Os árbitros, fruto da sua inexperiência, vão acusar o toque. Se exceptuarmos Jorge de Sousa e Artur Soares Dias, não há em Portugal árbitros que conjuguem experiência e qualidade. Esta nova geração sentiu o toque e isso viu-se hoje na Luz. Não conheço Luís Ferreira, árbitro da partida de hoje. Não sei se é bom ou mau árbitro, se o seu coração bate pelo Benfica, Sporting, Porto ou Carcavelinhos. Acredito na sua boa fé, até na sua competência técnica, mas hoje mostrou que a sua classe é excessivamente vulnerável fruto da inexperiência e que está mais predisposta a cometer erros contra quem tem o alvo a si apontado, neste caso o Benfica. Errou como erram os jovens correctores de bola, os jovens médicos, os jovens bancários, os jovens empregados de mesa, os jovens advogados e os jovens jornalistas. Errou porque não tem experiência. E este grupo actual de árbitros é profundamente inexperiente. É, neste momento, o problema desta classe.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DO BENFICA, É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DE EUSÉBIO



Não sei o que é, ao certo; se o crescendo

"Sou dooooo Beeenfiiiiica"

se é o orgulho que aquela voz transporta, como que carregando nas sílabas todos os momentos gloriosos que este clube viveu

"e iiiiiiiiiiisso m´envaideeeece"

ou talvez a voz radiofónica dos grandes tenores do século passado misturada com as acentuações perfeitas em português-veludo das personagens dos filmes a preto e branco de filmes de Leitão de Barros, Perdigão Queiroga ou Arthur Duarte

"tenho aaaaaaaaaaa geniiiiica que a qualquer engrandeeeeeeeeeeeece"

parece que vejo a casa da minha avó, a sala ampla, portadas para a luz branca-transparente das paredes solares do Alentejo, na mesa um bordado minucioso, fotografias gastas, um terço, um rosário e o barbudo-mártir ao lado dos pratinhos de pássaros, de mãos e braços abertos para a eternidade. As asas de anjinhos de loiça querendo voar sobre os livros e algo ou alguém, de dentro das histórias fechadas em lombadas a couro vermelho e letras a ouro, que sai e anuncia

"Sooooou de um cluuuuube lutadoooooooooooooooor"

e parece que vejo a sala, depois a casa toda, a rua, a vila e todas as salas, ruas e vilas encostadas de ouvidos à escuta junto à telefonia, enquanto Artur Agostinho canta "É goooooooooooooolo do Benfica, é gooooooooooooolo de Eusébio" e os pássaros dos pratos aterram nos ombros de famílias inteiras em silêncio, escutando golos e passes e defesas, imaginando os lances, criando novos movimentos, inventando as cores que não vêem nos botões do aparelho que lhes sopra que o Benfica está a voar sobre o Real Madrid, que é Cavém, Coluna, de novo para Cavém, abre para Águas, levanta de primeira para a área, Eusébio amortece, remate de Cavém, golo

"que na luuuuta com fervoooooooooooooooooooooooooor nuuuuuuuuuuuunca encontrou rrrrrrrivaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

e o país explode vindo de um soturno silêncio de damas-de-companhia, medos, fomes, gabardinas e chapéus nos balcões dos cafés, para um grito que faz levantar as saias da donzela tímida que esperava no banco de jardim o seu prometido, que faz ouvir a voz daquele velho sisudo que não dava palavras ao mundo, faz abrir de alegria a cara do pai-de-família que, todo metido no ar, prometeu bebidas, comidas e o que se quisesse a metade do povo que se abraçava, se beijava, se aleijava, se atirava contra as amarguras do tempo enquanto as portas se partiam, mesas eram mergulhadas na intempérie de pernas, braços, cabeças, gente aos pulos, gente aos gritos, gente aos beijos, o padeiro a agarrar na jarra de flores e a levantá-la no ar, em gesto de vitória: "é nossa", e as crianças, espantadas, aos gritos histéricos, a mãe "cuidado com o deus-menino" e o deus-menino estatelado no soalho, embebido em aguardente e ferido de morte pelas vidraças da garrafa, dos copos, das loiças, pés atrás de pés, espezinhado o filho de Nosso Senhor e, na parede, o barbudo parecendo rir de sangue

"neeeeeeste nooooooooooooooosso Poooooooooooooooooooortugaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

não posso dizer, não sei dizer, o que é, que me faz levantar no Estádio, emocionar-me, ter amor desta maneira por uma ideia que não tem corpo nem precisa de ter, por um ideal, um voo, um sentimento, uma dor e uma alegria tamanhas sempre que oiço

"Seeeeeeeer Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenfiquista"

e transporto dentro de mim todas as memórias misturadas numa só, passado, futuro, presente tudo numa amálgama de tempo em que vejo slides difusos, pequenos momentos, grandes momentos, vêm-me à alma aqueles instantes e o Estádio, aquele ecoar do golo que parecia que começava por debaixo da relva e ia espraiando a voz, subindo lentamente pelas escadas e pelos corpos das pessoas, era um língua de som que, quando a bola tocava as redes, nos afundava como onda, goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo e nós morríamos uns nos outros, engalfinhávamo-nos uns nos outros, já sem saber se as pernas e os braços eram nossos ou dos outros, uma massa compacta de gente e cachecóis, bandeiras, chapéus, camisolas, sapatos, fumo, papelinhos e o ritmo que subia, pulsava, o chão tremia, o ar vibrava e começava a dança

"é ter na aaaaalma a chama imensa, que nos conquiiiiiiiiista e leva a palma à luz inteeeeeeensa"

e o Sol vinha mesmo, risonho, beijar-nos, em tardes que pareciam infinitas, tardes que amoleciam o betão e se prolongavam para lá do possível

"com orgulho muito seeeeeeeeu, as camisolas berrantes, que nos campos a vibraaaaaaaaaaaaaaaaaaar"

e os velhos lembravam-se de ter erguido com as mãos as vitórias e o Estádio, os novos ouviam e queriam fazer parte, os Pais levantavam os filhos, mostravam-lhes o que era aquilo, queriam-nos ali para toda a vida, e os filhos mostravam orgulho e gratidão por poderem vibrar, e pais, filhos, avôs, netos, estranhos, conhecidos, amigos, amantes, namorados olhavam-se dentro do golo e cantavam

"são papooooooilas saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaltitanteeeeees"

e então calava-se tudo um instante, um pequeno instante em que 120.000 pessoas não faziam um único ruído, jogadores e adeptos numa espécie de comunhão do silêncio, os holofotes como templos antigos, os placards electrónicos gigantes anunciavam 00:00, cheirava a relva e a terra molhadas, a fumos inebriantes, sentia-se um pulsar que era a própria respiração do Estádio, tum tum tum tum tum tum, e era de dentro dele, por osmose do betão para os pés, depois pelo corpo, até ao céu, que se iniciava o estrondo da batucada

"Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica!"

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ederson e Rui Patrício



Sem qualquer facciosismo, considero o Ederson superior ao Rui Patrício. O guarda-redes do Sporting é seguro nas bolas altas, é rápido a sair e tem  bons reflexos mas como ele há muitos. Já as qualidades do guarda-redes do Benfica são raras, entre as quais a invulgar capacidade de jogar com os pés (é, no fundo, o guardião perfeito para o modelo de Guardiola). Não custa adivinhar que será o melhor do mundo nos próximos anos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pizzi ao cubo

Há uma certa maneira de Pizzi jogar à bola que me deixa saudoso da infância. Lembro-me de mim na adolescência. Sou eu ali no canto do ciclo a fumar cigarros e a dar beijos às miúdas quando o Pizzi avança pelo campo, faz triangulação, recebe, finge que remata, deixa cair o guarda-redes, depois golo. É provável que eu goste do Pizzi porque gosto e tenho saudades daquilo que eu senti há muitos anos. Já tocou, a professora de Matemática está à espera mas eu ainda tenho a Vitorina ao meu colo a cheirar a perfume de flores e a língua dela parece um helicóptero.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não vender

Vender titulares em Janeiro é sempre - reforço o SEMPRE - uma má ideia e um sinal contrário àquele que os discursos oficiais de estabilidade financeira e ambição interna e europeia querem fazer crer. Pelo Tetra e por uma campanha na Champions à Benfica, espero que as notícias de hoje sejam manifestamente exageradas.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O jogador da nossa vida



Jonas é o melhor jogador que vi jogar no Benfica. Não me esqueço de Chalana, de Rui Costa, de Paulo Sousa, de Pablo Aimar, de João Vieira Pinto, de Diamantino, de Valdo, mas Jonas não é só o que faz com e sem bola. É o que melhora nos outros. É raro encontrar na história do jogo craques que pela forma como jogam melhoram substancialmente o jogo dos colegas. Como diz de forma muito feliz o Felipe Rebelo, é o jogador da nossa vida.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Vídeo-árbitro



O futebol é o desporto mais universal do mundo. Não há ilha neste planeta, por mais selvagem que seja, que não tenha ainda sido palco de uma futebolada. Pode a bola ser o esférico de um côco acabado de cair, pode ser um jornal enrolado dentro de uma meia ou atado a uma corda, pode ser uma pedra, uma borracha de um pneu, uma concha ou crustáceo ancestral, uma super-pastilha gorila de Laranja ressequida. Onde houver um ser humano, haverá alguém a dar toques com o pé em objectos mais ou menos redondos. Haverá um remate;  alguém que, entre duas estacas na areia, o tentará defender.

Haverá erro e acerto, boas e más decisões. Na escola primária, rapidamente percebemos que o árbitro não tem sequer de ser uma figura humana mas a noção simples de bom-senso entre os jogadores. Alguém grita: "é falta!" e o lance, entre alguma discussão acalorada, acaba ali rapidamente decidido porque o jogo pede para continuar. O jogo quer continuar. O jogo tem de continuar.

Tal é a essência infantil porém absolutamente criativa do futebol que, ao contrário de outros desportos, não absorve bem medidas que o subjuguem ă normalidade de uma burocrática avaliação. O jogo, este jogo, não pode ser constantemente interrompido para que 3 ou 4 engravatados de chuteiras analisem meticulosamente as imagens num ecrã. Não faria sentido para os jogadores, seria entediante para os adeptos. É por isso que, quanto a mim, daria ao futebol apenas duas inovações tecnológicas:

1) A da linha de baliza. Saber se a bola entrou totalmente ou não. Com esta medida, que seria IMEDIATAMENTE assinalada (não se perdendo minutos a decidir o lance), garantíamos que a verdade desportiva no seu aspecto mais essencial - o golo - ficasse absolutamente garantida.

2) O direito dado a cada treinador de pedir uma segunda avaliação sobre um lance. Não são os árbitros que devem ter esse encargo, esses devem fazer o seu papel em campo como sempre fizeram - talvez se apostarmos numa melhor formação na arbitragem deixemos de ser todos tão paranóicos,  maldosos e desconfiados dos árbitros. Como no Ténis, pede-se o "olho de Falcao", embora defenda que no futebol só deve existir uma oportunidade. Se o treinador pedir uma avaliação num lance duvidoso (uma possível grande penalidade, um fora-de-jogo que deu golo, uma falta para expulsão),  o jogo pára. Se tiver tido razão,  o árbitro agirá sobre esse lance e esse treinador manterá o direito a um pedido. Se o pedido tiver sido incorrecto, essa equipa ficará até ao final do jogo sem qualquer direito a pedidos de reavaliação dos lances.

Por amor de Iniesta, não estraguem o futebol.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Bruno de Carvalho, um Presidente que faz bem ao Benfica



Bruno de Carvalho. Basta ficar 5 minutos a analisar-lhe as expressões para perceber que há ali qualquer coisa que não bate bem - quer dizer, o senhor não joga com o baralho todo. De olhos esbugalhados, discurso arrogante e sem nexo, o peculiar Presidente do Sporting vai alimentando a fogueira com a acendalha que o elevou e o mantém no poder: o anti-Benfica.

Nessa sua saga infernal de explorar o mais forte fraquinho dos sportinguistas, não vê limites nas palavras e nas acções: tanto pode mentir descaradamente aos sócios sobre um determinado assunto e logo depois defender o seu contrário; enviar cães de fila para denegrir o treinador da equipa de futebol, criando um ambiente pavoroso entre técnico e jogadores; colocar em causa a idade e honra de um miúdo de 18 anos que joga no rival; entrar no Sporting com a promessa de ter garantido uma parceria com um fundo, depois inventar uma perseguição  aos fundos que acabou na obrigatoriedade de tirar mais de 20 milhões de euros às já muito frágeis contas do clube, e logo a seguir anunciar mais uma parceria com um... fundo.

Bruno de Carvalho segue em frente, sempre em frente. Por mais ridicularizado que seja pela realidade, por mais derrotas nos tribunais, nos campos de futebol, na comunicação, de Carvalho vai em fuga permanente até ao abismo final. Leva nas mãos a bandeira do anti-Benfica mas ela já não convence todos os sportinguistas que começam a compreender a manobra de diversão.

Ao Benfica já nem interessa responder. Se eu fosse Director de Comunicação do Glorioso, mandaria calar todos os papagaios Guerras, Gomes da Silva,  Venturas e quejandos. A melhor coisa para queimar Bruno de Carvalho é Bruno de Carvalho. Com a sua arrogância, com a sua desesperada sede de protagonismo, com a falta de dignidade, a pobreza de espírito, a boçalidade, o tipo dá tiros nos pés a cada intervenção aos microfones, a cada post no facebook.

É deixá-lo arder sozinho. E agradecer-lhe a saga paranóica que teve para evitar que o Benfica dobrasse o Sporting em campeonatos nacionais. Não só ninguém foi atrás da burla dos 4 campeonatos como ainda recebemos mais 3 Taças de Portugal para o nosso palmarés sem mexermos uma palha. Já merece um espaço no Cosme Damião.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Andrés Iniesta, um jogador contra a estatística



Nada tenho contra Ronaldo. Pelo contrário, acompanho-o desde que chegou à equipa principal do Sporting, gostei de ver a evolução que teve em Manchester, a maturidade em Madrid, a liderança na Selecção Nacional.

Vejo-lhe todas as centenas de golos, os arranques diabólicos, os remates certeiros, potentes e confiantes de um miúdo que chegou ao topo do mundo por ter uma ambição desmesurada que o faz não ter impossíveis, uma humildade emocionante que o faz trabalhar sempre mais do que os outros.

É uma máquina de fazer golos. É um portento atlético, uma mistura explosiva de técnica, velocidade e potência. Já é um dos Eternos na História do jogo e ainda lhe faltam pelo menos mais 5 anos dentro dos relvados.

Mas dar 4 bolas de ouro a um jogador como Ronaldo é a demonstração clara de que ainda falta caminhar muito para que tenhamos este maravilhoso jogo verdadeiramente apreciado. O futebol para ser golo tem de ser remate. Para ser remate tem de ser passe. Para ser passe tem de ser espaço. Para ser espaço tem de ser cérebro. O jogo dos génios não é melhor só porque é mais bonito, é melhor porque é mais eficaz. Porque cria constantemente as condições para que a equipa brilhe sempre mais.

Não dar uma única Bola Dourada ao melhor jogador do Mundo, Andrés Iniesta, e dar 4 a um jogador que, sendo fantástico e empolgante, não trouxe nada de novo ao jogo, não criou, não o entendeu, não o reinventou por dentro, é um insulto ao próprio futebol. É ser adepto da estatística e a estatística em futebol vale perto de zero.

A estatística em futebol é um diálogo de surdos:

- Gostaste d"O Jogador", do Dostoievski?
- Eh pá,  adorei. Tem 170 páginas e a imagem da capa é extraordinária.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O ouro de Marvin



No texto que escrevi na Quinta dava o mote ao nosso mister:

"Atrair o adversário, puxar a pressão para terrenos que nos sejam favoráveis e depois procurar, através de variação do flanco e da verticalidade, criar situações de 4x3, 3x2 , 3x3. O desposicionamento de Adrien, atraído pela cegueira em pressionar mais à frente e nas faixas, deixará o corredor central para Pizzi brilhar. (...)

Claro que o ouro está nas costas de Marvin: vejo dois ou três golos a acontecerem na primeira parte com a exploração do espaço nas costas do lateral-esquerdo do Sporting. Bastará ao Benfica ser eficaz na transição e chegará ao intervalo a ganhar 3-0"

Mister Vitória leu as indicações e os golos acabaram por acontecer precisamente nas costas de Marvin vindo de transição rápida pelo meio em superioridade/igualdade numérica (o primeiro) ou no espaço de Marvin (o segundo).

E foi assim que, não jogando grande espingarda, o Benfica ganhou um jogo fundamental. O ouro estava mesmo em Marvin.

Uma equipa à imagem do seu treinador


Com tudo o que isso tem de bom e de mau.

O Benfica derrotou o Sporting por 2-1 na primeira vitória conseguida em clássicos na Luz em mais de dois anos e meio. Sob o espectro de derrotas recentes contra Marítimo e Napoli, pressionado pelos cinco pontos recuperados por parte do Sporting nas últimas jornadas e com o peso do passado recente a assolar a memória de todos os que vivem o futebol, Rui Vitória surpreendeu ao mexer no onze base, lançando Rafa e Jimenez, com sucesso, saindo dessa forma vencedor no duelo com Jorge Jesus.

O Benfica foi igual a si mesmo nos jogos grandes. Uma fiel imagem do seu treinador. Cauteloso, arriscando pouco ou nada, tentando sair a jogar sempre sem correr o menor dos riscos e não se incomodando em ceder a posse de bola ao adversário. E se a equipa soube interpretar na perfeição as ideias de Rui Vitória, verdade seja dita que o treinador também escolheu os intérpretes que melhor poderiam desempenhar essa tarefa: Rafa Silva, uma autêntica flecha sempre que se desenhava um contra-ataque; e Raul Jimenez, um jogador com um espírito de sacrifício muito diferente do de Mitroglou, capaz de participar mais e melhor ao nível da primeira linha defensiva e de dar mais velocidade ao ataque.

Não alinho pelo diapasão de que a equipa que vence é sempre a melhor. É um daqueles chavões mais que muitas vezes usado e que pouco ou nada dizem. Se tal fosse verdade, teria de admitir que o Porto foi melhor que o Benfica na Luz no ano passado, ou que o Benfica foi melhor que o Sporting em Alvalade no jogo do título. Não fomos nem inferiores no primeiro caso nem superiores no segundo. Da mesma forma que hoje não fomos inequivocamente superiores ao Sporting. Fomos o que somos. Uma equipa com um processo defensivo e ofensivo relativamente sólidos mas que abdica vezes demais da construção de jogo apoiado, por receio, por medo, por algo que nem sei bem de que se trata, mas aparentemente sem necessidade dada a valia individual dos jogadores e inclusivamente dos ditos processos de jogo.

Por tudo isso, esta é uma equipa à imagem do seu treinador. Há competência, bastante trabalho, algum medo e muita solidariedade. E enquanto assim for, o Benfica estará sempre mais perto de conquistar o tetracampeonato.

sábado, 10 de dezembro de 2016

11 Glorioso para o dérbi

Ederson
Semedo, Lindelof, Lisandro, Cervi
Fejsa
Carrillo, Pizzi, Rafa
Jiménez, Guedes

A realidade de Benfica e Sporting desde que Bruno de Carvalho é Presidente



Nuno Saraiva considera que, desde que Bruno de Carvalho é Presidente, o Benfica passa por "dificuldades" extremas a ponto de terem de ser "escamoteadas" com notícias referentes a mais uma derrota do Sporting - desta vez, perante a Lei. Há um certo ecletismo nas derrotas de Bruno de Carvalho, é um facto - tanto perde no relvado como numa barra de tribunal.

Vejamos então que realidade tem sido a do Benfica e a do Sporting desde que Bruno de Carvalho é Presidente, socorrendo-nos do trabalho do excelente blogue SportingAutêntico (uma espécie de Ontem vi-te no Estádio do Luz sportinguista; ou seja, defendem sempre primeiro o clube, não quem o dirige):


Futebol

BENFICA
- Campeão Nacional 2013/14
- Campeão Nacional 2014/15
- Campeão Nacional 2015/16
- Liderança de 2 pontos Campeonato Nacional 2016/2017 à 12a jornada
- Taça de Portugal 2013/14
- Taça da Liga 2013/14
- Taça da Liga 2014/15
- Taça da Liga 2015/16
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- Derrota nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões 2015/16; 1/16 da Liga Europa - 2015/16
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Perante estes dados, resta-nos dizer: Obrigado, Bruno. Se pudéssemos votar nas próximas eleições do Sporting, os nossos votos seriam sempre teus.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Porque vai o Benfica perder o derby de Domingo

Na antecâmara de mais um derby dos derbies, o Benfica vem deixando sinais desencorajadores relativamente ao momento de forma e ao futebol praticado em campo. De cinco pontos de vantagem sobre o eterno rival, arrisca-se a terminar a próxima jornada atrás do Sporting. E este Nostradamus que vos escreve acredita que tal acontecerá.

O principal motivo para tal crença prende-se com a forma como Benfica encara e joga os grandes jogos, contra equipas de valia desportiva semelhante, como Napoli, Besiktas e Porto. Se nos jogos com os italianos até se admite a superioridade transalpina, fruto não só da qualidade individual dos seus jogadores mas também pelos princípios de jogo, com privilégio pela posse de bola, maioritariamente a circular pelo corredor central, impostos por um dos melhores e mais sedutores treinadores europeus, tal não se compreende com equipas como Besiktas e Porto. Consentir e aceitar o domínio do Porto de Nuno Espírito Santo é um péssimo sinal. Especialmente quando, nos escassos momentos em que o Benfica tinha posse de bola, conseguia colocar em sentido a equipa azul-e-branca. Com o Besiktas, na Turquia, sinais diferentes de um mesmo problema: a forma como a equipa abdicou da posse de bola, voluntariamente, após o terceiro golo, despoletou a sólida recuperação dos turcos, potenciada por 15 minutos de descontrolo emocional à semelhança do que se vira em Napoli. Por outro lado, o Sporting, nos jogos que teve esta temporada com equipas de valia semelhante ou superior à sua (Porto, Dortmund e Real Madrid), conseguiu produzir exibições sólidas em todos os jogos, sem se encolher, com excepção na recepção aos alemães. Falhou em momentos chave, é certo, o mais flagrante esta quarta-feira passada com o Legia, mas é uma equipa que nos jogos grandes não se amedronta, não recua, não despreza a posse de bola e põe os adversários em sentido. Deste modo, não me admiraria se o Sporting entrasse na Luz sem medo, com vontade e capacidade para mandar no jogo, tal como no ano passado com o resultado que se conhece.

E tal situação é um espelho, mais do que o que valem as equipas, do que são os seus treinadores. Já aqui explanei o que penso de Jesus e de Vitória em escritos anteriores e o que faz de cada um deles, à sua maneira, com as suas características, treinadores com sucesso a nível nacional. Enquanto Jesus vale o que vale pelo que sabe e conhece do jogo, no plano táctico, peca no lado humano, na condução de homens, na forma como lida com a adversidade, onde Rui Vitória leva vantagem. Contudo, é nesta dualidade Jesus x Vitória que reside a força e a potencial da vantagem do Sporting e do seu treinador para o jogo de domingo. Pese embora o facto de o Benfica se ter sagrado campeão nacional, o ascendente psicológico de Jesus sobre Vitória é uma realidade que neste momento me parece indesmentível. Da mesma forma que Mourinho tem um ascendente sobre Wenger ou o Barça continua a conseguir dominar o Real Madrid, Jesus continua por cima nestes duelos com Rui Vitória, contribuindo para tal as três vitórias conseguidas nos primeiros quatro meses da época passada, com especial destaque para aquele derby que, por muito que tentem, os jogadores e adeptos do Benfica não esquecerão quando entrarem na Catedral no próximo domingo.

Por fim, a qualidade colectiva e individual. Acredito que do ponto de vista colectivo as equipas estão significativamente mais próximas uma da outra por esta altura do que há doze meses e que as diferenças que se poderão sentir no domingo serão fruto do que foi escrito nos parágrafos anteriores, isto é, da forma como jogadores e treinadores encaram os grandes jogos, nomeadamente o encontro com o maior rival. Já no campo das individualidades, estou longe de estar tranquilo. André Almeida não oferece a mesma qualidade que Eliseu (sim, leu bem, Eliseu); Luisão e Lindelof estão num momento de forma medonho (falaremos disso noutras núpcias) e Pizzi quando é obrigado a tarefas defensivas no corredor central contra equipas de alguma valia vê-se dominado pelas circunstâncias. Por tudo isto, não me chocaria se o Sporting saísse da Luz com os três pontos e a liderança.

Um verdadeiro sportinguista na SportingTV

Na SportingTv, um dos comentadores habituais diz assim: "É preciso respeitar o Boavista, um dos 5 únicos clubes campeões nacionais".

Ora bem, nós aqui aplaudimos o sentido crítico deste comentador, que acabou de ridicularizar a luta do seu Presidente pelos tais 4 campeonatos que são Taças de Portugal. Caso contrário, não seriam só 5 os campeões nacionais. É que também Carcavelinhos e Marítimo venceram a prova que agora está a ser metamorfoseada noutra coisa por Bruno de Carvalho.

O aplauso de pé a este espírito independente que acabou de juntar a sua voz à do sportinguista Rui Miguel Tovar e de todos aqueles sportinguistas que são,  digamos, sérios.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O que esperar do dérbi de Domingo?





Uma goleada histórica do Benfica sobre o Sporting. As razões são várias, algumas de difícil explicação, mas há outras que podem ser anunciadas:

1) A fragilidade que advém da forma obcecada como o Sporting olha para os jogos com o Benfica.

Benfiquistas e sportinguistas não olham da mesma forma para este dérbi. Nós gostamos dos jogos contra o eterno rival, damos-lhes a óbvia importância que têm e sabemos que são sempre jogos especiais nos quais podem ocorrer as maiores surpresas, mas não vivemos obcecados com o dérbi nem o olhamos como o jogo mais importante da época. Já no Sporting o ângulo é diferente: são jogos que muitas vezes são vistos como os salvadores da época. Não é exagero dizer que, se a equipa nada ganhar mas ganhar os dois jogos ao Benfica, há uma quantidade considerável de sportinguistas que não darão a época como perdida.

Isto, esta obsessão pelo rival, cria nos jogadores uma pressão acrescida nestes jogos. É por isso que o Benfica tem uma substancial vantagem no histórico entre os dois clubes. Na Luz, então, o desequilíbrio é evidente.

2) O desespero por o Campeonato ser a única tábua de salvação da época para o Sporting.

Eliminado das provas europeias em Dezembro, o clube tem no Domingo uma prova que tanto lhe pode dar a liderança como o deixar a 5 pontos da mesma. Em caso de derrota, o ambiente será fatal para uma equipa cujo treinador já começa a ser criticado pelos adeptos e um presidente a ele umbilicalmente relacionado.

Nos últimos os 34 anos, o Sporting venceu 2 campeonatos. Não ganha um há 16 anos. Todo este ambiente reforça o desespero e pressiona a equipa a entrar na Luz em modo tudo-ou-nada. Naturalmente, sairá do jogo com nada.

3) O futebol propriamente dito.

Jogando em casa e tendo melhores jogadores, o Benfica é claramente favorito. O único factor de equilíbrio é o facto de Jesus ser melhor treinador que Rui Vitória no plano puramente futebolístico (em todas as outras vertentes, que também contam, o treinador do Benfica é superior ao do Sporting). Porém, precisamente por se achar melhor (muitas vezes acha-se mesmo o melhor do mundo), o Sporting entrará na Luz de modo absurdamente ofensivo, com a equipa demasiado subida, em pressão constante sobre a nossa saída.

Se o Benfica souber contornar a asfixia que Jesus pedirá aos seus jogadores, nos primeiros 30 minutos terá 4 ou 5 oportunidades claras de sair com vantagem numérica já no meio-campo sportinguista. Para isso, Lindelof, Semedo, Pizzi, Fejsa, Guedes e Cervi serão fundamentais. Atrair o adversário, puxar a pressão para terrenos que nos sejam favoráveis e depois procurar, através de variação do flanco e da verticalidade criar situações de 4x3, 3x2 , 3x3. O desposicionamento de Adrien, atraído pela cegueira em pressionar mais à frente e nas faixas, deixará o corredor central para Pizzi brilhar. A propósito, será o melhor jogo de sempre do transmontano desde que chegou ao Benfica.

Claro que o ouro está nas costas de Marvin: vejo dois ou três golos a acontecerem na primeira parte com a exploração do espaço nas costas do lateral-esquerdo do Sporting. Bastará ao Benfica ser eficaz na transição e chegará ao intervalo a ganhar 3-0. Depois será apenas gerir e ir marcando, aproveitando o desespero sportinguista.

Aposto num 6-1 para o Benfica.




sábado, 3 de dezembro de 2016

Se o futebol fosse aquilo que sonhámos



Há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para menorizar os factores motivacionais das equipas adversárias. Também há uma tendência biológica para a cagança em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles). Por fim, quando as coisas correm mal (leia-se: derrota), há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para atribuir aos árbitros a razão do insucesso.

Isto - ignorância sobre a motivação alheia, arrogância na vitória e desculpabilização com factores externos - ocorre a 99,9% dos adeptos de futebol, sejam eles de que clube forem. É igual. 99,9% dos adeptos não tem capacidade para ler a realidade tal qual ela existe. Isto ocorre porque 99,9 por cento das pessoas que vêem futebol não gostam de futebol, gostam dos seus clubes. Se gostassem de futebol, mais facilmente entenderiam que os árbitros não erram só a favor dos outros clubes,  entenderiam que uma equipa que sofreu uma goleada duas semanas antes vai sempre partir para o jogo à procura de restabelecer a sua dignidade, entenderiam que ganhar é só uma passagem passageira pelo sucesso.

Pouca gente tenta perceber o lado mental do jogo. Anda aí um tipo, o Rui Lança, que sinceramente  me parece ter coisas interessantes a ensinar sobre isto (não recebi nenhum cheque do Rui nem sequer o conheço pessoalmente). É por isso que nos deparamos no futebol com a mais gloriosa incongruência: um jogo extraordinário muito mal interpretado pela maioria dos que o acompanham. Ou seja, se só 0,1% dos adeptos é capaz de tentar entender o jogo e ver além do clubismo, é possível fazer do futebol a maravilha que ele podia ser?

A resposta é óbvia: não. O futebol, este jogo mais extraordinário ainda que o xadrez, vive numa gruta muito esconsa, sombria e silenciosa se pensarmos naquilo que podia ser. O futebol é 0,1% do seu ideal. E mesmo assim é esta grande maluqueira que nos apaixona. Mesmo assim ainda há quem compreenda o Pizzi. Ou o Paulo Sousa. Ou o Redondo. Ou o Pedro Barbosa. Ou o Bebeto ou o Rui Costa. Ou o Valdo. Ou o Jonas. Ou o Le Tissier.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Estádio da Luz

A comoção do Presidente Joaquim Ferreira Bogalho no dia 1 de Dezembro de 1954, o dia da inauguração do Estádio da Luz. Um estádio construído pelo amor, dedicação e solidariedade de todos os benfiquistas.


Futebol



Se o futebol tem no seu seio verdadeiros  energúmenos que se aproveitam dos clubes para libertar complexos e gerar violência, também é uma das actividades sociais mais maravilhosas que há neste nosso arredondado planeta. Basta não ser mesquinho mental nem ter preconceitos de classe elitista para o entender.

Basta ler, ouvir, ver a onda desarmante de solidariedade e comunhão que se criou em redor de um clube que perdeu de forma trágica grande parte dos seus jogadores, técnicos e funcionários.

O futebol é o desporto mais popular,  mais transversal, mais democrático do mundo. Bastam 4 pedras para fazer duas balizas e um jornal enrolado dentro de uma meia para ser feliz.

sábado, 26 de novembro de 2016

Uma equipa de bom futebol



Não me parece que haja justiça nas críticas feitas à equipa nem necessidade de grandes mudanças no onze-base. Os últimos dois jogos mostraram-nos um Benfica a jogar bom futebol - com momentos de brilhantismo -, o que sugere competência no trabalho desenvolvido pela equipa técnica. Os 3 golos sofridos nasceram de erros individuais (Semedo, Lindelof, Salvio), não por desorganização colectiva. Há apenas que ir incorporando os dois jogadores que elevarão ainda mais o futebol da nossa equipa: Jonas e Rafa por Salvio e por um dos avançados e ir dando mais minutos a Zivkovic, Carrillo e Danilo. Estamos bem, fortes, a produzir golos e jogo bonito, com Lindelof, Fejsa e Pizzi do outro mundo. Rumo ao 36, Glorioso.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Ainda digerindo a azia…



Ontem não consegui ver a primeira parte. Lá ao longe no rádio ia ouvindo os gritos de golo do locutor. 0-3 ao intervalo e eu a caminho de casa.

“Porra devemos estar imperiais!”

Estava ansioso por chegar a casa e ver o nosso Benfica a brilhar ao mais alto nível.

Epa mas que merda…

Expectativas máximas e desilusão maior ainda. Comecei a ver o jogo aos 50 minutos e não é preciso descrever o que aconteceu. Aquela segunda parte é uma dolorosa memória que não adianta estar agora a avivar.

Foi mesmo muito mau.

O que resta do assunto é perguntar como é possível um super-Benfica acabar massacrado. Como é possível deixar aquele jogo empatar?

Há mérito dos turcos? Obviamente. Pelo que percebi o treinador do Besiktas soube ler o jogo, soube mexer no jogo e mudou o rumo de todos os acontecimentos ao fazer entrar o Tosic para a ala esquerda da equipa.

Mas o mérito do Besiktas nunca poderia ser suficiente para o Benfica sofrer o que sofreu naquela segunda parte.

A minha opinião é baseada no que vi ontem e não só.

Este Benfica é uma equipa de ataque. Mentalidade ofensiva e muita qualidade nos processos ofensivos. O que não nos falta é criatividade e imaginação.

Somos bons a atacar. Muito bons. Que o diga o Besiktas que levou 3 e podia ter levado mais (segundo li).

Contudo, e como foi ontem aqui referido neste espaço, há uma bipolaridade na nossa equipa.

Nos processos de uma equipa é o defensivo que tem mais mão do treinador.
Aqui mora o grande defeito do Rui Vitória.

O nosso processo defensivo é muito fraco. Temos uma equipa mal trabalhada defensivamente.
Quando apanhamos uma equipa com bons definidores no ataque, quando apanhamos um Besiktas, a coisa treme toda ali atrás.
O nosso processo defensivo depende todo ele da omnipresença do Fejsa. Cabe ao sérvio compensar todas as lacunas que temos no modo como encaramos o ataque adversário.

A ganhar 0-3 e com o jogo e qualificação no bolso tínhamos 3 abordagens possíveis:

- Continuar a fazer o nosso jogo, expondo-nos a contra-ataques e condicionando a posse de bola adversária.
- Recuar um pouco a linha ofensiva e dar mais bola ao adversário, não nos limitando a querer defender mas tentando controlar mais os espaços e tempos do jogo.
- Segurar o resultado com unhas e dentes. Foco na defesa, autocarro estacionado e todos os caminhos tapados.

Normalmente a segunda opção é a abordagem mais inteligente e matura de uma grande equipa. Foi a escolha do Rui Vitória, a escolha mais óbvia mas a pior escolha para a especificidade da nossa equipa.

Nesta abordagem arrefecemos o nosso ponto forte e expomos ao máximo o nosso ponto fraco. Com esta escolha damos espaço e liberdade para o adversário constantemente explorar a nossa ineficiente forma de defender.

Ficar ali no intermédio foi o que nos lixou.

Aquela segunda parte foi muito uma colisão entre a nosso filosofia de jogo – mentalidade de equipa grande que se recusa a jogar à equipa pequena – e a nossa necessidade.

Se não era para atacar teria de ser para defender com tudo. É este o contexto do nosso jogo em duelos mais exigentes.

Mas atenção. Não critico a opção do Rui Vitória. Eu não quero o Benfica com o autocarro na Turquia e adoro que o nosso treinador respeite a grandiosidade da nossa águia. Gosto de um Benfica com mentalidade de clube enorme.

Simplesmente constato que para a situação em análise talvez outra abordagem tivesse sido mais eficaz. Faço-o à posteriori.

No jogo de ontem só tenho uma critica para o nosso mister. Critico o Rui Vitória por ter permitido que o Salvio deixasse que o Semedo fosse atropelado toda a segunda parte.

3-3
8pts

Ganhar na Luz e ganhar o grupo. Não há outra conta a se fazer.