terça-feira, 21 de março de 2017

Ponderação da Sorte

Eu não posso acreditar que um treinador que trabalhe o ano todo e é campeão nacional consiga todo o seu sucesso à base da sorte.

Por mais água que se beba a sorte não pode ser o guia de todo o percurso futebolístico de uma equipa.

No final da época passada houve um consenso de opinião sobre a evolução do Benfica ao longo do campeonato. Foi uma evolução que se deveu muito à integração do Renato Sanches no meio campo e à deslocação e afirmação do Pizzi à direita.


A equipa ganhou força no centro do terreno, ganhou maior capacidade de recuperação da bola, de pressionar alto, de rotura ofensiva e de aproximação dos sectores. Era o monstro Renato a funcionar.
Mas a equipa ganhou muito mais do que essa força. Ganhou um futebol mais apoiado, mais pensado e com maior qualidade pelo interior do terreno. Era o futebol do Pizzi a funcionar.

E este consenso foi tão geral que até o treinador do Benfica falou nele no final da época.

Rui Vitória foi peremptório a afirmar que a grande transformação do Benfica devia-se ao posicionamento do Renato a 8 e do Pizzi na linha.

Rui Vitória não se coibiu de elogiar o mérito de ter devolvido o Pizzi à direita.

Rui Vitória não se escondeu ao afirmar que no Seixal o Benfica não iria conseguir outro Renato e que por isso teria de ir ao mercado.


Foi? Não.

O que me traz aqui é unicamente a incoerência deste discurso. Onde antes havia o mérito de uma opção que lançou o Benfica para o Tri, agora há um retrocesso total no modo de operar.

Como pode Rui Vitória explicar os seus méritos na redescoberta do Pizzi se agora o trouxe de volta para o meio? Não faz sentido.

E por isto me questiono quanto na Sorte tem apostado o treinador do Benfica.  A lógica do Tri não retiraria o Pizzi da linha em prol de um jogador com características tão opostas às suas. A lógica do Tri não colocaria a 8 um jogador tão distinto do Renato.

A sorte diz-me que a aposta no Renato e a deslocação do Pizzi foram um golpe não pensado e não trabalhado do treinador. Esta situação revela que não fossem as lesões do Salvio e nunca o Pizzi teria jogado à direita nem o Renato teria sido chamado à titularidade.

Porém eu recuso-me a acreditar que seja tudo um bafo de sorte. Recuso-me a acreditar que em nenhum momento do processo o treinador teve um desenvolvimento racional que o levou a tomar as suas decisões, a perceber os méritos destas e a reconhecer o seu sucesso. 

Por isto tenho de perguntar: Que raio se passou Rui? 

domingo, 12 de março de 2017

Celebremos o futebol


Televisão, livros, carrinhos, legos e cassettes fizeram parte da infância de quase todos os miúdos nos anos 90. Não fui excepção. Com a diferença de que sempre privilegiei o futebol. Mesmo na televisão, no tempo dos quatro canais, mais que os desenhos animados era o futebol que me captava a atenção. Os jogos do campeonato nacional, o saudoso Domingo Desportivo ou o Remate na RTP com a Cecília Carmo, os Donos da Bola na SIC com Nuno Santos ou Jorge Gabriel, os jogos da Liga Espanhola e da Liga Italiana ou o Contra-Ataque com o Sousa Martins na TVI fizeram parte minha infância. Eram os meus desenhos animados. Era o que me prendia à televisão. Também vi cassettes. Tenho dezenas delas. Rei Leão, Pinóquio, Toy Story, Aladdin, Pocahontas, enfim, até as organizava por ordem alfabética, por ordem de duração. E qual foi a cassette que vi, que rebobinei para rever vezes sem conta até à náusea? A daquele Barcelona x Atlético de Madrid para os quartos-de-final da Taça do Rei de 1997.

Faz hoje vinte anos sobre esse jogo. Por feliz coincidência, o Zé Luís, meu primo, sabendo que não iria poder ver o jogo, deixou uma cassette a gravar. E graças a isso, vezes sem conta, vi e revi os frangos de Vítor Baía, os contra-ataques dos colchoneros, a classe e os golos de Ronaldo (o verdadeiro, o melhor futebolista que vi jogar e a primeira camisola que tive), aquele remate do Figo à entrada da área e a festa blaugrana após o golo decisivo de Juan Antonio Pizzi, que seria promessa eleitoral de Luís Tadeu nas malfadadas eleições de 1997 em que se elegeu Vale e Azevedo em detrimento do professor do Instituto Superior Técnico.

Não sendo a minha primeira memória sobre futebol, é talvez a primeira memória marcante que tenho. Celebremos o futebol.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Não havia necessidade


Sinto-me um Diácono Remédios. Bem sei que a minha intervenção não será profiláctica, até porque o mal está feito, mas o futebol praticado pelo Benfica assim me obriga. Não havia necessidade de assistir ao que se passou hoje em Dortmund.

Sou um resultadista. Não sou um romântico à espera de um futebol cativante para me deixar com água na boca enquanto vejo o Benfica jogar. Quero resultados. Quero vitórias. E não me choca absolutamente nada que o Benfica seja eliminado por uma equipa como o Borussia Dortmund. Mas acreditem que mesmo para um resultadista tem de haver um conjunto de princípios de jogo, defensivos e ofensivos, que devem estar bem delineados e que devem ser cumpridos. Acreditar que os resultados podem surgir sem esses princípios não é resultadismo mas sim depositar a fé, a crença ou o que lhe quiserem chamar em algo de tão arbitrário e fortuito que dá pelo simples nome de... sorte. Há uma diferença enorme entre resultadismo e sorte. E os adeptos que acham que o Benfica esteve bem nesta eliminatória com o Dortmund porque pareceu em condições de discuti-la durante os primeiros 135 minutos da mesma, desenganem-se, porque não esteve. Este Benfica, personificado por Rui Vitória, não é resultadista. É um Benfica que se apoia e que aposta tudo na sorte. E isso é um péssimo princípio para quem quer ganhar no futebol, ainda para mais quando dispõe de um conjunto de individualidades muito acima da média, como é o caso do actual plantel do Benfica. A sorte não dura sempre.

Não peço para o Benfica jogar aberto nem para subir as linhas. Pensar que poderíamos jogar assim com o Dortmund seria de um romantismo que não se coaduna com a minha forma moderadamente cautelosa de ver o jogo. Mas precisamente por ser cautelosa e não ser medrosa faz com que não abdique de certos princípios de jogo. Falo de princípios de jogo e não de escolhas individuais de jogadores porque apesar de Vitória ter optado por Samaris, Almeida e Pizzi para o corredor central isso não faz do onze do Benfica obrigatoriamente mais defensivo da mesma forma que as escolhas de Mourinho para a final da Liga dos Campeões de 2010 (Pandev, Milito e Eto'o) não fazem do Inter uma equipa mais ofensiva. Está tudo relacionado com as ideias e com os princípios de jogo uma vez que as escolhas dos jogadores não reflectem obrigatoriamente uma ideia de jogo. E se o Benfica tem uma organização defensiva que é francamente boa para a realidade do plantel que apresenta (e aí o mérito deve ser dado ao seu treinador), ofensivamente, com tanto talento individual, torna-se incompreensível a ausência de um plano de jogo, o medo de ter posse de bola e a incapacidade de olhar o adversários nos olhos. É um reflexo de ausência de processos, de pouco treino e espelha o medo que Rui Vitória tem de jogar contra equipas de valia mais ou menos semelhante à do Benfica. Foi isto que se passou este ano com Besiktas, Napoli, Dortmund, Porto e Sporting. Com a certeza de que algumas vezes se perde, algumas se empata e outras tantas se ganha. Mas apostar o destino na sorte parece-me ser extremamente redutor para a qualidade individual que o plantel do Benfica tem.

domingo, 5 de março de 2017

Presimentes

Enquanto fenómeno social, o futebol move paixões que são por vezes difíceis de entender. Existe um certo grau de irracionalidade no jogo que faz com que os adeptos não se consigam distanciar o suficiente para conseguir analisar algumas decisões do próprio futebol, como não acontece em mais nenhuma circunstância da vida. Talvez por isso o patrão do adepto seja um déspota, a mulher seja uma controladora, o dono do café onde vê a bola seja um avarento, o primeiro-ministro seja um aldrabão, os políticos sejam todos corruptos mas o presidente do clube de futebol, ai o presidente do clube de futebol, seja um herói sacrificado, um exemplo de liderança e uma figura de culto.

Algo está errado. Especialmente quando os três grandes se vêem representados por estas figuras. E aqui estou completamente à vontade para falar porque a única vez que votei em Vieira foi há oito anos e o arrependimento chegou menos de um ano depois, não pelo título de campeão nacional conquistado mas pelos negócios pouco claros que começaram a surgir com o Atlético de Madrid. A confiança perdeu-se. Porque um clube é muito mais que os títulos que conquista e o seu presidente deve ser alguém minimamente digno e que represente os valores do clube. Por isso mesmo, apesar de reconhecer o excelente trabalho que Vieira tem feito em áreas como a construção de infraestruturas, a criação de condições para os escalões de formação singrarem, a modernização e profissionalização da estrutura e finalmente o sucesso desportivo, não posso nem irei esquecer as mentiras sucessivas, os negócios pouco claros e a ausência de um debate plural e democrático promovido por constantes fugas aos debates com a oposição, com alteração de estatutos e de datas de eleições para evitar candidatos incómodos.

Este défice democrático criado pelo populismo dirigido às massas por presidentes-ditadores é aliás um fenómeno que não é de hoje e não é exclusivo ao Benfica (nem a Vieira, porque mesmo Vale e Azevedo chegou a ter quase 40% dos votos depois de um dos mandatos mais nefastos de um presidente na História do Benfica). Também o FC Porto, cujo presidente tem mais anos de poder que eu de vida e no qual não me lembro de existir um candidato a desafiar Pinto da Costa, vive este problema de ausência de debate democrático. E o Sporting, claro, depois de ultrapassada a oligocracia do croquete que dirigiu o clube anos e anos a fio, vê-se agora a braços com um demagogo radicalista com um discurso que cativa a maralha e que coloca em xeque qualquer pessoa com ideias e que se oponha ao seu reinado através de comunicados, insultos e perseguições.

Não me identifico com esta gente. E tenho alguma dificuldade em compreender gente inteligente que utiliza justificações como "pelo menos fez obra", "deu-nos títulos" ou "devolveu o orgulho de ser benfiquista/sportinguista/portista aos adeptos". Nem tudo tem de ter um preço, especialmente quando ultrapassa a nossa dignidade ou a dignidade que os clubes devem ter.

P.S. Peço desculpa a todos os que ao longo dos anos foram comentando aqui ou no Eterno os meus posts, mas a partir de hoje só o poderão fazer através do Facebook na página do Ontem Vi-te no Estádio da Luz.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Vieira na CMTV, Seixal e nada mais

As palavras ficam a ecoar-me na cabeça. Tenho este defeito. Fico a pensar nas coisas e quanto mais penso mais quero falar delas. Principalmente quando as palavras são pomposas mas ocas de sentido.

As entrevistas deste presidente do Benfica são fenomenais para títulos de jornais. Se queremos ficar entusiasmados agarremo-nos às Capas nos quiosques e deixemos de lado o muito de nada integral.

Mais de uma década das mesmas coisas, das mesmas promessas e das mesmas repetições.
Recentemente temos no nosso clube muita gente com tiques de senado. Não são senadores. São aproveitadores de bons momentos para se sentirem superiores. O que é falso só pode soar a falso.

No Benfica temos obrigação de ser pró-futebol, de defendermos os mais altos valores da sociedade e do desporto. Está-nos no sangue enquanto clube. Contudo, outra coisa é o que está no sangue de cada um, de cada individuo. Quem não o é finge mal ser.

Faltou muita seriedade ao presidente do Benfica. Quis brincar com a inteligência das pessoas e passar de fininho pela chuva. Não conseguiu, não devia ter tentado e saiu risonhamente encharcado.
Pessoas frontais nunca têm tanta necessidade de lembrar que o são.

Entrevista fraca. Pobre. Má. Triste.

Pela postura, pelo discurso, pelo modo como abordou a ida à comissão de arbitragem, pelo modo como falou da parceria com o Jorge Mendes, pelo modo como ignorantemente abordou a vida profissional do seu filho, pela forma como falou de um projecto do qual o clube faz parte, pela palha sobre os 15M e pela incoerente, simplista e falsa abordagem que fez à saída do Jorge Jesus.

Este presidente do Benfica resume-se a uma coisa positiva: Seixal.

É aqui o seu grande mérito e é aqui que sempre brilha nas entrevista.

Não é pela abordagem aos jovens jogadores, não é pela forma como estes são ou não aproveitados no clube, é pela obra.

O Seixal é o grande legado de Luis Felipe Vieira e quando fala desta obra é quando mais entusiasma.

Aqui dou os parabéns ao presidente do Benfica. A qualidade do Seixal, os frutos que dá e o maravilhoso trabalho que lá se faz são mérito seu.

O Seixal é Benfica, o Seixal é o futuro do Benfica, o Seixal tem de ser ainda mais o presente do Benfica e o Seixal é benfiquismo. É aquilo que mais pode orgulhar os benfiquistas e é aquilo que melhor alimenta todos aqueles, que como eu, sonham há anos por ver uma maior identidade Benfica neste Benfica.

Deixo um conselho a Luis Felipe Vieira:

Entrevistas só sobre a obra do Seixal. Uma hora a falar sobre o que se fez, como se planeou, como se desenvolveu, futuros projectos, como se vão fazer, ponto de situação. Uma hora a dissecar este magnifico sonho.

Aí sim poderíamos estar perante uma magnifica entrevista deste presidente.




Desabafo 2:

“Se eu quero vender por 45 ou por 50, ele é que tem de ir o vender, não sou eu que vou vendê-lo.
As pessoas não vão pensar que chegam aqui ao estádio da luz a comprar os jogadores do Benfica. Pode haver um ou outro jogador.
Agora, se nós não estivermos no mercado de certeza absoluta que somos desconhecidos.”

Alguém percebeu alguma coisa desta trapalhada?

Pagamos uma percentagem à Gestifute para fazerem um trabalho que é público que o presidente do Benfica tem andado a fazer.

Os jogadores do Benfica são desconhecidos no mercado, os clubes não mandam observadores aos jogos do Benfica, os desempenhos dos jogadores a nível interno e europeu não são visíveis além fronteiras e aquilo da "montra europeia" é um mito.

O mito à volta da venda do Guedes lá caiu.
Quanto ao Ederson parece que nos estão destinados uns 30% parcelarmente pagos.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Futebol camaleónico

O futuro do jogo passará por ter 10 jogadores que podem jogar em todas as posições do campo. Com a evolução táctica a forçar mais criatividade individual e colectiva, ganhará mais vezes quem tiver jogadores-camaleões. Não mais a treta de o central ter de ser "alto e forte", o médio "intenso", o extremo "rápido" ou o avançado "possante". Ao longo do jogo, os melhores serão os que fizerem rodar os seus jogadores por todo o espaço do relvado. Aos 10:35 e 11:37 - Hummels, o central médio ofensivo.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Rogério Ceni e João Schmidt, dois extraterrestres no Brasil


Há uma boa ideia de futebol a nascer lentamente e incompreendida em São Paulo. Há um treinador a dar os primeiros passos que vai ser um dos melhores da História. Há um jogador que tenta ser o veículo dessa boa ideia através do seu treinador para os restantes colegas. Mas antes do sucesso vai haver polémica, já há polémica.

Rogério Ceni está a mostrar ao Brasil algo que ele definitivamente não quer nem compreende: pinturas de futebol europeu. Quer ter a bola, não quer ter de chegar à área adversária em 24 segundos. Diz: "não temos tempo contado, isto não é basquetebol" e levanta a ira de milhões de brasileiros pelo mundo. Neste momento, só os adeptos do São Paulo tentam perceber o que Ceni anda a fazer nos treinos e só porque foi dar 3 a Santos e deu 5 em casa ao Ponte Preta. Bastará que os resultados piorem para que o seu discurso maravilhosamente encantado pelo jogo e a ideia que tem para a sua equipa sejam massacrados.

Tem, no entanto, a seu favor as duas décadas e tal que deu ao clube como guarda-redes goleador. Isso dar-lhe-á algum espaço para poder revolucionar de vez um futebol que transborda de talento e escasseia de cérebro. Ponho as mãos no lume por Rogério Ceni enquanto ele vai cumprindo os seus primeiros meses de carreira: será finalmente o treinador brasileiro capaz de chegar aos grandes clubes europeus e ter sucesso. A fome de bola, o amor pelo jogo, o gosto por discutir o que quer fazer, a qualidade que se vai vendo em campo, a persistência na sua ideia no país mais céptico do mundo em relação a um outro tipo de futebol, dizem-me que mais cedo ou mais tarde Ceni ganhará tudo. Há ali um olhar ainda ingénuo de quem vem para o jogo para lhe trazer algo que ele ainda não viu. E depois João Schmidt.

Diz tudo de Ceni ter feito girar a sua ideia em redor de um jogador que é raríssimo aparecer por aquela banda. Anuncia que nos próximos meses veremos um São Paulo capaz de fazer do futebol brasileiro um pouco mais do que NBA. É médio, tem sangue de médio e cabeça de médio. Pode ser 6 ou 8, pode ser sempre o que a equipa precisar que ele seja.

João Schmidt, 23 anos, já passou por Portugal quando representou o Vitória de Setúbal há 2 épocas. Olhando para os 750.000 euros que custaria o seu passe e o facto de terminar contrato nos próximos meses, por mim regressaria ao nosso país para envergar a Gloriosa. O futuro vencedor da Champions Rogério Ceni que me perdoe.

 https://m.youtube.com/watch?v=BHYjavRVT3s

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perdemos com uma vitória por 1-0



Talvez seja preciso recuar a um Benfica-Barcelona de 2006 para encontrar um dia em que o adversário chegou à Luz e fez de nós o que quis. Mas nem assim (ainda respirámos nesse jogo). O que se passou ontem foi um atropelo do princípio ao fim. Foi olhar para um jogo em que de um lado há um óptimo treinador e do outro há um mau treinador. Sem medos: há um mau treinador. Os jogadores do Benfica não estavam minimamente preparados para o atropelo que levaram; não sabiam o que iam encontrar, ninguém lhes disse que terrenos deveriam pisar, o que fazer em campo, que fórmulas para contrariar o adversário.

Como benfiquista - sócio, adepto, doente -, sinto vergonha do que se passou no Estádio da Luz. Ver o meu glorioso clube enterrado na sua área durante 90 minutos não é aquilo que eu espero, não é esse o desígnio que eu defendo para uma ideia colectiva que tem de ser briosa. Não fomos briosos, não ostentámos Mística nenhuma - a malta dos anos 60, 70 e 80 só não vai dizer isto porque foi comprada a troco de pneus para os carros e talvez uns ambientadores para snifar cheiros.

O Benfica, o maravilhoso Sport Lisboa e Benfica, é outra coisa. É um clube que, sem dinheiro, sem reconhecimento, sob a mão trágica de uma ditadura, chegou à Europa e tornou-se Bicampeão Europeu. Em 7 anos, foi a 5 finais europeias. O Glorioso Sport Lisboa e Benfica é o clube que tem 11 finais europeias, 3 delas ganhas. O Benfica, o mais Glorioso, é o clube que mais Campeonatos Nacionais tem, mais Taças de Portugal tem, mais Taças da Liga tem. O Benfica foi durante décadas o clube que contrariou o Estado Novo - o único com eleições democráticas, o único clube do povo, o clube ao qual foi proibido o seu Hino (Avante, Avante p'lo Benfica), o que viu ser-lhe negada a cor  (passou de vermelho a encarnado). O maravilhoso Sport Lisboa e Benfica é maior do que Portugal.

O meu Pai não me ensinou a ser de um clube submisso. Portanto, para mim ontem perdermos com uma vitória por 1-0.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Mudanças para ganhar

Ederson
Semedo, Lindelof,  Jardel, Almeida
Fejsa
Carrillo, Pizzi, Cervi
Jonas, Rafa

- Almeida por Eliseu. Com Cervi naquele corredor a garantir alguns momentos de profundidade, as poucas  mais-valias de Eliseu ficam colmatadas e Almeida defende melhor.

- Jardel por Luisão. Não sou fã do primeiro; nunca fui grande fã do segundo. Mesmo sem jogos nas pernas, contra uma equipa que explora constantemente o espaço entre o nosso médio defensivo e a nossa linha defensiva e a profundidade nas costas da defesa, Jardel será sempre melhor solução do que Luisão. Além disso, solta Lindelof para a direita, onde explora melhor as suas qualidades, especificamente a qualidade na saída de bola e a possibilidade de criar superioridade numérica em zonas perigosas para os alemães.

- Carrillo por Salvio. Talento contra correria desenfreada. Inteligência e instinto contra contabilizações da GoalPoint.

- Rafa por Mitroglou (ou por Jonas, se este não puder jogar). Comigo, o português seria sempre titular. É, a par de Jonas, Pizzi e Zivkovic (e Carrillo, a espaços), o que mais constantemente cria. Tem uma imaginação prodigiosa, faz coisas que não foram ainda vistas. Neste jogo específico será fundamental a pressionar em zonas mais baixas e depois,  na recuperação,  a ligar toda a equipa para os lances letais em que poderemos criar as nossas melhores oportunidades de golo.

2-1.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

UM POUCO MAIS SOBRE O ÓPTIMO JOGADOR QUE É PIZZI


Antes de mais, é importante esclarecer que 9 em 10 pessoas que falam de futebol só vêem uma vez o jogo sobre o qual falam: ao vivo ou através da televisão. Ora, isto limita muito a capacidade de perceber o que se passou em campo, já que há uma infinidade de acontecimentos que não são percebidos com uma só visualização. Juntem a isso a natural emoção e nervosismo de estar a ver a própria equipa e têm uma óptima poção mágica para não terem percebido nada do que se passou em campo para além dos golos, das jogadas perigosas, das faltas mais agressivas, dos possíveis penalties e das correrias de um jogador que consegue guardar a bola dentro de campo em carrinho.  Vejam, portanto, se puderem, o jogo mais uma vez. Mais duas, mais três.

No último jogo, Pizzi fez mais uma óptima exibição. Já sei: fez um passe de merda que ia dando golo do adversário.  É verdade, mas esqueçam agora esse lance. Revejam o jogo e atentem só no que anda Pizzi a fazer pelo campo. Com bola, sem bola, as indicações que dá aos colegas. "Mete ali", "traz", "estou livre", "solta na ala". Só lhe falta ter uma batuta. Vejam quando não só decide bem por ele mas pelos outros. O passe que encaminha a bola para o que ele sabe que vai resultar. Pizzi não é só um jogador que decide bem; ele ajuda a que toda a equipa decida melhor.

Escolho um entre milhares de lances iguais que faz durante a época: aquele que acaba com Semedo a sofrer penálti. São 15 segundos que resumem tudo sobre Pizzi: visão de jogo acima da média, noção perfeita do espaço,  dos colegas e da bola,  técnica, imaginação, inteligência, criatividade.

Ponham o vídeo nos 18:55 e vejam até aos 19:10. Pizzi recebe no meio, solta em Semedo para obrigar o adversário a focar-se na ala e a deixá-lo com espaço para pensar. Vai sempre dando o apoio a Semedo para que ele possa devolver.  Semedo devolve e corre para o espaço. Pizzi percebe que está congestionado,  que não é a melhor opção,  que a equipa não precisa de fazer tudo em histeria. Vai chegar ao perigo mas de outra forma. Sente que o adversário vem atrás dele, faz compasso de espera para retirar o adversário daquela zona e mete outra vez na direita, agora em Salvio. Vai logo dar ao argentino a opção de passe no meio. Salvio, muito bem, mete em Pizzi que, sem recepção,  directo, põe logo em Semedo que fica de frente para a baliza em posição privilegiada.

Pizzi é isto. Faz coisas destas constantemente. Faz de uma bola no meio-campo uma jogada de perigo em 15 segundos. Mete a equipa toda a fazer o que ele quer só pelo posicionamento e tipo de passe (geralmente para o espaço para condicionar positivamente as opções ao colega). Pizzi é extraordinário e não é pelos golos que marca ou pelas assistências. É porque mete sempre a equipa muito mais perto do golo. Agora digam-me: como é que a goalpoint vai meter a inteligência desta jogada na estatística?


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Era só o que faltava que não ganhassem hoje



O Benfica não anda a jogar nada. Zero ou perto de zero.

Porque já teve 40 lesões este ano, porque há uma dependência exagerada da qualidade individual, porque não há assim tantas ideias colectivas. Porque o Vitória deve ter jurado a nossa Senhora de Fátima que utilizaria o Pizzi em todos os 60 jogos da época e então,  "derivado disso", o Pizzi,  que é quem coordena todo o nosso futebol,  está mais morto que vivo (inclusivamente, até já fez um cameo no Walking Dead a esbracejar sem grande energia atrás do actor principal - ver próximo episódio).

O génio Jonas ainda anda à procura do melhor traço; o Fejsa é melhor não utilizar para não ter uma recaída de 2 meses, como dezenas de outros que vão passando pelo laboratório altamente científico do Senhor Doutor do Benfica.

O Lindelof está a jogar à Jardel. O Lisandro à Jorge Soares. O Luisão à King. O Jardel à Jardel. O Eliseu à Eliseu e o Grimaldo que nunca mais volta.

O Rui Vitória anda a falar numa oitava acima com árbitros enquanto coxeia (uma imagem tão tenebrosa que o fez ser mais castigado que um treinador que empurra fiscais de linha e cospe pastilhas por todo o lado). O adjunto dele, o Stephen Colbert, está cheio de tremeliques por ter de ir para o banco. O Vieira anda de mala na mão, qual vendedor de frigoríficos, pela China e pela Oceania a querer despachar meio plantel porque "o Benfica não precisa de vender jogadores para equilibrar as contas".

Sim, tudo isto. Mas também somos a melhor equipa. Temos os melhores jogadores. Somos os tricampeões. Os melhores adeptos vão encher o Bonfim. Para a semana o Sporting vai ganhar ao Dragão e deixar o Porto a 7 pontos, o que obrigará os SuperDragões a nova viagem de cortesia com ameaças de morte - desta vez, ja não aos árbitros mas ao seráfico Espírito Santo.

Livrem-se de perder pontos hoje. Ganhem pelo Eusébio. Pelo Coluna. Pelo mister Vitória, que estará suspenso a enviar sms's ao Stephen Colbert. Por mim. Por todos os benfiquistas e até pelos outros como o Presidente que neste momento está na Mongólia a ultimar uma excelente parceria que vai desenvolver significativamente a marca Benfica naquela região tão fanática pelo desporto-Rei.

Ganhem, meus cabrões. Ganhem com o melhor Vídeo-árbitro do mundo: os olhos do Pizzi.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Teatro na Austrália



O excelente comentador da Eurosport, Miguel Seabra, lembrava no início desta final histórica a frase genial de Navratilova: "Federer é o melhor de todos os tempos; Nadal é o melhor entre os dois."

Hoje Federer conquistou muito mais do que o 18° título do Grand Slam. Hoje Federer não foi só o melhor de todos os tempos - foi também, e sobretudo, o (muito) melhor entre os dois. Cai assim o pano cénico com maravilhosos momentos de Ténis: aos 35 anos, o génio finalmente domou a sua besta negra.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um castigo inenarrável


Rui Vitória foi punido com um castigo de 15 dias e multa de 3825 euros na sequência de palavras dirigidas ao árbitro do encontro de ontem, Tiago Martins, estando assim impossibilitado de se sentar no banco de suplentes do Benfica nos próximos três (!) jogos do campeonato.

Pelas imagens, daquilo que é público, vê-se Rui Vitória a falar com o juiz do encontro e respectivos árbitros assistentes no final da partida, em tom assertivo e pouco exaltado, nada demais para o que se conhece e vê habitualmente no futebol português.

Recorde-se que Jorge Jesus, na sequência de gritos, perseguição e empurrão ao árbitro do encontro entre Vitória Futebol Clube e Sporting, para a Taça da Liga, teve a mesma suspensão de 15 dias mas falhou apenas um jogo para o campeonato e um para a Taça de Portugal, ambos em Chaves.

Fica registado. Revejam as atitudes de ambos os treinadores no final dos respectivos encontros e retirem as vossas conclusões. 

Um golo que brilha na escuridão

Com a tristeza,  passou-nos ao lado o golo mais bonito do Benfica esta época. Uma lição de como sair da pressão adversária sem pontapés para a atmosfera - jogadores juntos dando apoios e várias soluções, triangulação simples, bom posicionamento.  Pizzi finalmente liberta e Salvio cria o desequilíbrio. Ali, naquele momento, já o golo esperava refastelado numa praia a beber cocktails. Já o golo sabia que ia acontecer. Jonas recebe no meio, abre na esquerda para alargar a defesa do Moreirense e assim criar um falso chamariz enquanto, do lado contrário,  o Salvio segue o seu trilho natural, à espera de uma bola que aparece cheia de álcool dos pés do Eliseu. A finalização é óptima. Futebol de eleição que terminou aos 6 minutos deste jogo, mas o golo, este golo, valeu o bilhete.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Sondagem à boca das Furnas



Eu adoro esta foto exceptuando uma coisa. O quê?

a) A Taça dos Clubes Campeões Europeus
b) A Taça de Portugal
c) O manto vermelho
d) A outra Taça dos Clubes Campeões Europeus
e) O Marechal da Mística Pizzi
f) O único Presidente ilegítimo da História do Benfica

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Momento do Sporting

Hoje apetece-me escrever sobre o Sporting, até porque pelo que tenho ouvido mais ninguém está interessado em falar do que se passa no relvado sportinguista.

Esta semana ouvi um senhor na Sic Noticias a falar sobre esta crise de resultados e exibições.

O que ele disse não é muito diferente daquilo que todos os outros dizem (nunca é).
O Sporting perde e joga mal devido à sua estratégia de comunicação, à montagem da sua estrutura do futebol porque o André Geraldes é muito novo e devido aos baixos rendimentos dos seus jogadores.
Por sua vez os baixos rendimentos dos seus jogadores são consequência de motivos alheios ao jogo: o Bryan foi pai, o Gelson está a negociar o contrato e o William e o Adrien querem sair.
Isto é o Rui Santos a falar de futebol.

Acho isto muito pobre. 
Quando queremos analisar o rendimento de uma equipa devemos começar por olhar para o comportamento tático e colectivo desta.

Acima de tudo o Sporting joga mal por responsabilidade do seu treinador. A construção do plantel foi deficiente, a aposta nos jogadores é indecifrável, a construção táctica da equipa é inexplicável, a leitura do jogo é incompreensível e o rendimento dos jogadores é um reflexo do trabalho nos treinos e do seu posicionamento em campo.

O grande problema do futebol do Sporting é a incapacidade do Jorge Jesus em ler o jogo e de não inventar.

O Jorge Jesus é um grande treinador, um péssimo manager, um mau líder e um egocêntrico insuportável. Tem as suas ideias e não sabe adaptar-se nem aceitar os seus erros. Por isto não evolui.

Gosta de trabalhar as suas equipas para ataques rápidos e constantes. Muita gente à frente e pouca gente atrás. Abdica do controlo, do equilíbrio, do domínio no meio-campo e da segurança. Por isto o seu maior sucesso sempre foi no saber colocar uma equipa a defender com poucos.

É um treinador de 4-2-4 com laterais ofensivos e um médio de chegada à área. Neste seu estilo de jogo não pode viver sem um médio defensivo capaz de fazer todas as compensações, não consegue viver com um ponta de lança de área e não funciona sem um segundo avançado móvel capaz de fazer a ligação de todos os sectores no meio-campo ofensivo.

Na época anterior o Sporting não correspondia às ideias do seu treinador mas o desta época é exactamente um espelho destas.

O ano passado, com o plantel que lhe foi dado, o Jorge Jesus adaptou os melhores jogadores às suas ideias. Foi nesse contexto que o João Mário foi encostado à direita.
O que é que vimos nesse Sporting?
Um ponta de lança móvel com capacidade de ir às alas, pressionar os defesas e aproximar as linhas – Slimani. Um segundo avançado a fazer o papel ofensivo de um 10. E um João Mário, portanto um extremo direito que na verdade era um médio, a jogar mais encostado à direita.
João Mário e Slimani potenciavam um jogo mais curto e apoiado no Sporting. Os jogadores actuavam mais próximos e com isso defendiam melhor, pressionavam melhor, corriam menos e multiplicavam as linhas de passe.

Esta não era uma equipa à Jorge Jesus mas era muito o reflexo daquilo que o treinador fazia os jogadores renderem nos treinos.

Nesta segunda época já preparou uma equipa à sua imagem, num 4-2-4 puro.

Contudo começou logo por falhar em 3 momentos:

- Construção do plantel. Foram vários os jogadores contratados sem qualidade, o que acaba com a profundidade da equipa levando ao desgaste físico e emocional em várias posições.

- Qualidade do treino. Alguma coisa aqui está a falhar pois não era expectável que o Jorge Jesus não conseguisse tirar qualquer rendimento de jogadores como o Markovic e Joel. Aliás, também do próprio Bryan.

- A dupla ofensiva. Para mim aqui mora a falha fatal do futebol do Sporting. Não só o Jorge Jesus ainda não conseguiu definir um jogador para a posição chave de todo o seu processo ofensivo, a de segundo avançado, como anda a jogar com um excelente ponta de lança cujo o estilo não se enquadra no Futebol do treinador. Por algum motivo o JJ não se cansa de demonstrar a sua insatisfação com o Bas Dost e não consegue sequer perceber a sua importância além golos.

Haveria um quarto ponto que seria o impulso para a invenção, principalmente na lateral esquerda. Bruno César a jogar ali é um erro enorme. Não só a equipa fica com um péssimo defesa esquerdo como perde um bom/útil segundo avançado.

A avaliação ao desempenho dos jogadores nunca pode ser independente do desempenho da equipa, e vice-versa obviamente.

Com isto quero dizer que jogadores que rendiam muito, como o Gelson e o Adrien, só podem baixar o seu rendimento com o acentuar do mau momento desportivo da equipa. É uma questão mental e também física. Além disso, andam a exigir a um miúdo de 21 anos que seja a solução de todos os problemas da equipa.

Depois também não podemos dissociar o desempenho dos jogadores do posicionalmento táctico da equipa.

O Bryan não é um jogador de sprints. O Bryan é um jogador de classe, de futebol apoiado e de construção. Nunca de correrias.

Hoje temos um Sporting a jogar muito mais largo. O avançado joga mais subido e central e o extremo direito joga mais aberto e vertical. Isto afasta os jogadores do Sporting, reduz os apoios e as linhas de passe.
Isto obriga a que o Bryan jogue mais para trás, corra mais e recorra mais ao passe longo. E depois com um Bruno César a lateral e um meio-campo menos apoiado, o costa-riquenho tem também de andar a desgastar-se mais defensivamente.

E não muito diferente é aquilo que se passa com o William. Não nos enganemos, o William Carvalho é um grande médio defensivo. Não é é um trinco. Está longe de ser um Fejsa.
O William não é rápido com a bola no pé mas sabe jogar, sabe avançar no terreno, sabe impor o físico, ler o jogo e combinar com os colegas.
Neste Sporting a exigência sobre o William é a de ser mais defensivo e solitário. Assim é mais pressionado quando tem bola, tem menos apoio e perde os momentos do jogo para fazer aquilo que sabe.

Se à partida as coisas estão mal construídas é normal que o desempenho dos jogadores não seja o melhor. Depois é ir somando o peso dos maus resultados e o acumular do cansaço.

Então no meio-campo é gritante a falta de cobertura tanto ao Adrien quando ao William.

Tudo isto pode melhorar com duas pequenas mudanças.

Jorge Jesus tem de parar de querer provar que transforma caca em ouro e começar a apostar nos melhores jogadores. Aqui tenho de concordar com o Bruno de Carvalho. O Sporting precisa de se livrar dos jogadores de menor qualidade, mesmo contra a vontade do treinador.

O Bruno César tem de ser colocado atrás do Bas Dost.

Como lateral é péssimo e todos os jogos são erros atrás de erros. Como segundo avançado nunca será um grande jogador mas as suas características podem servir muito a equipa, aumentando simultaneamente o rendimento colectivo e individual de todos os jogadores.
Ele consegue fazer a ligação entre os vários sectores do ataque, criando assim mais apoios ao Bas Dost, ao Bryan Ruiz e aos médios leoninos. Aproxima as linhas, elevando a capacidade de pressão e o número de linhas de passe, e liberta os médios para o momento ofensivo. Além disso é um médio com boa capacidade de meia distância o que iria logo proporcionar outras opções de finalização à equipa, obrigando os defesas adversários a dar mais liberdade ao holandês.

Agora, digam de vossa justiça.

Coates não é melhor do que o pior central do Benfica. Não vejo qualquer interesse nesta compra além de parecer advir de um benfiquismo lagarto que é o de pensar mais no adversário do que em nós. Não quero vinganças nem roubos nem nada. Quero o clube comprometido consigo e com os seus adeptos. Coates é um calmeirão que se posiciona invariavelmente mal e que por isso se farta de dar porrada e fazer penalties (que por acaso nunca são marcados mas disso a culpa é do Benfica).







terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A magia (in)visível da CAN



O preconceito é mais sanguíneo do que se possa pensar. Todos somos racistas - brancos, pretos, mulatos, indígenas, ciganos, asiáticos, seres de outros planetas. A educação que tivemos condicionou-nos, tentou fazer de nós seres maldosos. Mesmo quando os nossos pais e os nossos amigos foram boas pessoas ou tentaram ser boas pessoas, mesmo assim a língua venenosa do preconceito tentou sempre condicionar a nossa forma de ver o mundo. E só há um antídoto: viajar (ou pelo mundo ou pelo nosso cérebro). Viajar para quebrar todas as barreiras. Viajar para amar as diferenças. Viajar para sermos melhores.

No facebook, a maior competição futebolística africana é partilhada através de pequenos momentos humorísticos, coisas peculiares, gestos cómicos. Alguém diz

- Os gajos só dão porrada!

Outro concorda e faz um like. Depois passa um vídeo em que um jogador na maca leva um toque de um carrinho de apoio.

Nada disto interessa para aquilo que o futebol africano tem a dar ao mundo, e é muito e é lindo.

Confesso que só há 8 anos comecei a ver a CAN com olhos de quem quer ver. O que tenho visto é um futebol cheio de invenção e de infância. Claro, mal jogado tantas vezes como aquelas que vemos em Portugal, em Inglaterra, em França,  mas há coisas naquela forma de lidar com a bola que não são europeias.  Coisas que ainda vêm de uma maneira de viver o jogo muito para além da táctica ou de exigências milionárias dos clubes.

A CAN ainda nos permite ver pedaços de futebol de rua descalça. Mesmo os craques conhecidos mundialmente, quando chegam às suas selecções tornam-se mais humanos, arriscam mais, esquecem as prelecções em hotéis de luxo. Não é raro ver um jogador africano, que no seu clube é obrigado a cumprir religiosamente as directrizes do seu técnico, a deixar fluir a sua memória de futebol. A fintar 3 adversários como se estivesse ainda na rua onde nasceu. E vêem-se coisas lindas. Coisas que o fizeram ser o extraordinário jogador que agora é na Europa.

A CAN não é um circo para desenvolver no facebook o preconceito mascarado. A CAN é um óptimo lugar para ver futebol. Para perceber futebol. Porque o futebol não é nem nunca foi património de nenhum lugar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Esta jornada está a correr muito bem para nós



- conseguimos recuperar de um 0-3 para um 3-3, o que será uma óptima referência mental nos jogos futuros em que estivermos em desvantagem;

- fomos claramente prejudicados pela arbitragem, o que ajuda a destruir as teorias paranóicas dos rivais (a culpa de irmos na liderança afinal é mesmo do Benfica);

- o Sporting empatou logo a seguir, mantendo-se a 8 pontos de nós;

Agora só falta o Porto empatar com muito colinho do árbitro para ficarmos com o campeonato no papo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O elo mais fraco

O erro é um acontecimento natural em todas as profissões. Correctores de bolsa, médicos, bancários, empregados de mesa, advogados, jornalistas, todos erram. Os árbitros não são excepção. Tempos houve em que o erro na arbitragem se associou a um elevado clima de suspeição e com motivos que o justificavam. Mas os tempos mudaram. De uma classe composta por gente desonesta e corrupta, o paradigma da arbitragem no futebol português alterou-se com o folhetim Apito Dourado, que teve consequências muito positivas no que toca à transparência e honestidade intelectual dos juízes do jogo.

Depois de uma geração composta por homens como Pedro Proença, João Ferreira, Pedro Henriques ou Duarte Gomes, árbitros com maior ou menor competência, com qualidades e com defeitos, uns mais vaidosos, outros mais arrogantes e outros ainda bastante inseguros, mas todos eles minimamente idóneos e íntegros, abriu-se um gap geracional com a saída destes ex-árbitros. Deu-se lugar a uma classe que apesar dos estudos, dos seminários e das formações é francamente inexperiente e que tem mostrado não ter arcaboiço mental para lidar com as pressões de que tem sido vítima. Uma classe que hoje é facilmente influenciável.

Pelos erros próprios de Sporting e Porto, foram os árbitros a pagar a fava. É sempre mais fácil culpabilizar esta classe que assumir os próprios erros. Os principais rivais do Benfica colocaram o futebol português em estado de sítio, pondo em causa a honestidade dos árbitros e em perigo a  sua integridade física, com as ameaças de morte que são conhecidas. E como se viu pelo seminário organizado que juntou Conselho de Arbitragem, árbitros e dirigentes dos clube dos campeonatos profissionais, as tão propaladas decisões controversas foram, na sua larga maioria, correctas.

O problema vem depois. Os árbitros, fruto da sua inexperiência, vão acusar o toque. Se exceptuarmos Jorge de Sousa e Artur Soares Dias, não há em Portugal árbitros que conjuguem experiência e qualidade. Esta nova geração sentiu o toque e isso viu-se hoje na Luz. Não conheço Luís Ferreira, árbitro da partida de hoje. Não sei se é bom ou mau árbitro, se o seu coração bate pelo Benfica, Sporting, Porto ou Carcavelinhos. Acredito na sua boa fé, até na sua competência técnica, mas hoje mostrou que a sua classe é excessivamente vulnerável fruto da inexperiência e que está mais predisposta a cometer erros contra quem tem o alvo a si apontado, neste caso o Benfica. Errou como erram os jovens correctores de bola, os jovens médicos, os jovens bancários, os jovens empregados de mesa, os jovens advogados e os jovens jornalistas. Errou porque não tem experiência. E este grupo actual de árbitros é profundamente inexperiente. É, neste momento, o problema desta classe.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DO BENFICA, É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DE EUSÉBIO



Não sei o que é, ao certo; se o crescendo

"Sou dooooo Beeenfiiiiica"

se é o orgulho que aquela voz transporta, como que carregando nas sílabas todos os momentos gloriosos que este clube viveu

"e iiiiiiiiiiisso m´envaideeeece"

ou talvez a voz radiofónica dos grandes tenores do século passado misturada com as acentuações perfeitas em português-veludo das personagens dos filmes a preto e branco de filmes de Leitão de Barros, Perdigão Queiroga ou Arthur Duarte

"tenho aaaaaaaaaaa geniiiiica que a qualquer engrandeeeeeeeeeeeece"

parece que vejo a casa da minha avó, a sala ampla, portadas para a luz branca-transparente das paredes solares do Alentejo, na mesa um bordado minucioso, fotografias gastas, um terço, um rosário e o barbudo-mártir ao lado dos pratinhos de pássaros, de mãos e braços abertos para a eternidade. As asas de anjinhos de loiça querendo voar sobre os livros e algo ou alguém, de dentro das histórias fechadas em lombadas a couro vermelho e letras a ouro, que sai e anuncia

"Sooooou de um cluuuuube lutadoooooooooooooooor"

e parece que vejo a sala, depois a casa toda, a rua, a vila e todas as salas, ruas e vilas encostadas de ouvidos à escuta junto à telefonia, enquanto Artur Agostinho canta "É goooooooooooooolo do Benfica, é gooooooooooooolo de Eusébio" e os pássaros dos pratos aterram nos ombros de famílias inteiras em silêncio, escutando golos e passes e defesas, imaginando os lances, criando novos movimentos, inventando as cores que não vêem nos botões do aparelho que lhes sopra que o Benfica está a voar sobre o Real Madrid, que é Cavém, Coluna, de novo para Cavém, abre para Águas, levanta de primeira para a área, Eusébio amortece, remate de Cavém, golo

"que na luuuuta com fervoooooooooooooooooooooooooor nuuuuuuuuuuuunca encontrou rrrrrrrivaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

e o país explode vindo de um soturno silêncio de damas-de-companhia, medos, fomes, gabardinas e chapéus nos balcões dos cafés, para um grito que faz levantar as saias da donzela tímida que esperava no banco de jardim o seu prometido, que faz ouvir a voz daquele velho sisudo que não dava palavras ao mundo, faz abrir de alegria a cara do pai-de-família que, todo metido no ar, prometeu bebidas, comidas e o que se quisesse a metade do povo que se abraçava, se beijava, se aleijava, se atirava contra as amarguras do tempo enquanto as portas se partiam, mesas eram mergulhadas na intempérie de pernas, braços, cabeças, gente aos pulos, gente aos gritos, gente aos beijos, o padeiro a agarrar na jarra de flores e a levantá-la no ar, em gesto de vitória: "é nossa", e as crianças, espantadas, aos gritos histéricos, a mãe "cuidado com o deus-menino" e o deus-menino estatelado no soalho, embebido em aguardente e ferido de morte pelas vidraças da garrafa, dos copos, das loiças, pés atrás de pés, espezinhado o filho de Nosso Senhor e, na parede, o barbudo parecendo rir de sangue

"neeeeeeste nooooooooooooooosso Poooooooooooooooooooortugaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

não posso dizer, não sei dizer, o que é, que me faz levantar no Estádio, emocionar-me, ter amor desta maneira por uma ideia que não tem corpo nem precisa de ter, por um ideal, um voo, um sentimento, uma dor e uma alegria tamanhas sempre que oiço

"Seeeeeeeer Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenfiquista"

e transporto dentro de mim todas as memórias misturadas numa só, passado, futuro, presente tudo numa amálgama de tempo em que vejo slides difusos, pequenos momentos, grandes momentos, vêm-me à alma aqueles instantes e o Estádio, aquele ecoar do golo que parecia que começava por debaixo da relva e ia espraiando a voz, subindo lentamente pelas escadas e pelos corpos das pessoas, era um língua de som que, quando a bola tocava as redes, nos afundava como onda, goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo e nós morríamos uns nos outros, engalfinhávamo-nos uns nos outros, já sem saber se as pernas e os braços eram nossos ou dos outros, uma massa compacta de gente e cachecóis, bandeiras, chapéus, camisolas, sapatos, fumo, papelinhos e o ritmo que subia, pulsava, o chão tremia, o ar vibrava e começava a dança

"é ter na aaaaalma a chama imensa, que nos conquiiiiiiiiista e leva a palma à luz inteeeeeeensa"

e o Sol vinha mesmo, risonho, beijar-nos, em tardes que pareciam infinitas, tardes que amoleciam o betão e se prolongavam para lá do possível

"com orgulho muito seeeeeeeeu, as camisolas berrantes, que nos campos a vibraaaaaaaaaaaaaaaaaaar"

e os velhos lembravam-se de ter erguido com as mãos as vitórias e o Estádio, os novos ouviam e queriam fazer parte, os Pais levantavam os filhos, mostravam-lhes o que era aquilo, queriam-nos ali para toda a vida, e os filhos mostravam orgulho e gratidão por poderem vibrar, e pais, filhos, avôs, netos, estranhos, conhecidos, amigos, amantes, namorados olhavam-se dentro do golo e cantavam

"são papooooooilas saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaltitanteeeeees"

e então calava-se tudo um instante, um pequeno instante em que 120.000 pessoas não faziam um único ruído, jogadores e adeptos numa espécie de comunhão do silêncio, os holofotes como templos antigos, os placards electrónicos gigantes anunciavam 00:00, cheirava a relva e a terra molhadas, a fumos inebriantes, sentia-se um pulsar que era a própria respiração do Estádio, tum tum tum tum tum tum, e era de dentro dele, por osmose do betão para os pés, depois pelo corpo, até ao céu, que se iniciava o estrondo da batucada

"Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica!"

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ederson e Rui Patrício



Sem qualquer facciosismo, considero o Ederson superior ao Rui Patrício. O guarda-redes do Sporting é seguro nas bolas altas, é rápido a sair e tem  bons reflexos mas como ele há muitos. Já as qualidades do guarda-redes do Benfica são raras, entre as quais a invulgar capacidade de jogar com os pés (é, no fundo, o guardião perfeito para o modelo de Guardiola). Não custa adivinhar que será o melhor do mundo nos próximos anos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pizzi ao cubo

Há uma certa maneira de Pizzi jogar à bola que me deixa saudoso da infância. Lembro-me de mim na adolescência. Sou eu ali no canto do ciclo a fumar cigarros e a dar beijos às miúdas quando o Pizzi avança pelo campo, faz triangulação, recebe, finge que remata, deixa cair o guarda-redes, depois golo. É provável que eu goste do Pizzi porque gosto e tenho saudades daquilo que eu senti há muitos anos. Já tocou, a professora de Matemática está à espera mas eu ainda tenho a Vitorina ao meu colo a cheirar a perfume de flores e a língua dela parece um helicóptero.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não vender

Vender titulares em Janeiro é sempre - reforço o SEMPRE - uma má ideia e um sinal contrário àquele que os discursos oficiais de estabilidade financeira e ambição interna e europeia querem fazer crer. Pelo Tetra e por uma campanha na Champions à Benfica, espero que as notícias de hoje sejam manifestamente exageradas.